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- Às vezes olhando pra esse jogo de xadrez, penso que isso é tudo o que me restou dessa vida medíocre. Só me restou essa praça cheia de velhos, de desesperança e de vazio. Não é triste batalharmos a vida inteira pra acabarmos sentados em um banco pensando qual será a próxima jogada?
- De certa maneira sim, mas eu já estive conformado com esse fato desde o momento que percebi que meu dinheiro valia mais que a minha presença. Foi por isso que parei de trabalhar e hoje passo o tempo aqui na ilusão de que estou fazendo isso para meu próprio bem. Ainda tenho a sorte de ter esquecido grande parte da minha vida, que assim ainda sobra algum tipo de disposição. Xeque!
- Sorte? Ah! Eu daria tudo por uma lembrança sequer. Só tenho borrões, palavras avulsas, mal consigo lembrar dos nomes das pessoas que passaram por mim. E tenho certeza que há muitas coisas que por muito tempo eu considerei muito importante, e que eu deveria me lembrar agora, mas simplesmente não consigo. Essa sensação é horrível. Você não sente o mesmo?
- Não e nem quero me lembrar do que passou. A vida foi muito cruel e não faço questão de lembrar quem foi importante pra mim. Não faz diferença quem me elogiou ou quem mentiu pra mim. É a mesma coisa se todos me deixaram. Mas não precisa ter dó de mim, é assim que as coisas são. Mudemos de assunto. É a sua vez.
- É, às vezes a vida é assim mesmo. Penso que talvez eu tenha deixado muita coisa pra trás, por orgulho ou por ter achado conveniente. Quantos erros! Acabei sendo injusto comigo mesmo. Agi artificialmente somente porque não encontrava um caminho de volta, e só fui perfeito na minha imperfeição. Mas não me arrependo, se tivesse a oportunidade, acredito que não faria diferente. Você se arrepende do que fez?
- Ah, meu amigo, não quero falar de mim. Tudo o que eu quero é esquecer o que fui. Estou sentado aqui nessa cadeira justamente pra isso. E deixe toda essa tentativa de filosofar e jogue, eu tenho pressa.
- Pressa? Pressa por que, meu caro? Em algum momento da vida eu dei muito valor ao tempo, e não gostaria de perder um segundo sequer. Estava sempre planejando o que fazer no próximo minuto, organizando os horários pra fazer cada milésimo de segundo valer a pena; o tempo era sagrado. Queria aproveitar a vida ao máximo, mas hoje tempo é uma dimensão que não me faz diferença. Isso porque sei que, seja no próximo minuto ou na próxima hora, eu estarei bem aqui, nesse mesmo banco de praça olhando pra esse mesmo tabuleiro, mesmo que algum dia esqueça como se joga. E sei que um dia todos aqui vão partir, e talvez só me reste essas peças velhas.
- Tenho pressa porque tenho que alimentar um cachorro que apareceu em casa. Não é amor, mas o fato de ambos necessitarem de algo nos uniu. Eu dou comida, ele me dá alguns segundos de alegria. É assim. Ah, vou lhe dar um conselho: tome cuidado, nem sempre pensar demais e querer respostas pra tudo é a melhor saída. Em um segundo de distração a vida te domina, e aí você fica sem saída. Xeque-mate.

5 comentários:

yoshi disse...

sensacional COMO SEMPRE, né? deu pra sentir a sensação de "to no fundo do poço, jogando xadrez na praça, oh vida cachorra" dos personagens.

se bem que... ainda que não especificado, imagino que a idade desses jows seja avançada. velhos, certo? eu acho que a linguagem que eles empregaram destoa da condição deles. quero dizer, eles são velhos acabados que tão na praça jogando coisas por não ter o que fazer da vida e... falam como se fossem idosos eruditos tomando o chá das 5. achei isso meio estranho, faltou verossimilhança.

no mais, foda as always. escreva sempre, safada! terá sempre um leitor garantido. ;D

Mariana Rodrigues disse...

[i] Uhaul. Adorei essa postagem..
O jeito das falas, a interpretação e sensações são ótimas.
Já vi vários velhinhos (se é que são mesmo idosos os seus personagens), jogadores de praças. São exatamente assim!
Gostei muito. Continue escrevendo, vc faz isso muito bem! Bjs.

raquel - disse...

sim, são velhinhos.
ah, é que tomei como partida o fato de xadrez já ser um jogo erudito, e eles discutem o fato de ter acabado ali, mesmo que antes fossem ricos. cada um com seu motivo, claro.
maas, não nego que faltou verossimilhança, pervitcha. thks pelo comentário, críticas são sempre bem-vndas :D

e obrigada a anne, também! :)
eu nunca vi esses jogadores de praça, na verdade :~ só imaginei como deveriam ser porque soava interessante :D

Anônimo disse...

Muito bom. Mas geralmente esses velhos de praça jogam damas, talvez jogam damas pq já se esqueceram de como é jogar xadrez.

Chico disse...

...e porque é mais fácil conseguir as peças.

Bom texto :D

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